Documentário não é Circo

Mais um exemplo pavoroso de esculhambação é o filme "Alô, Alô Terezinha", de Nelson Hoineff. (2009).

Postamos aqui alguns trechos do genial e esclarecido artigo do analista Cleber Eduardo - publicado originalmente na revista cinética (leia na íntegra em:  http://www.revistacinetica.com.br/aloaloteresinha.htm ) em maio de 2009:

(…) Alô, Alô, Terezinha é um estimulante à interdição. Não se está falando em interdições oficiais (de mercado, de censura à realização, de proibição de exibição), mas de uma interdição crítica, que procura deixar claro que, quando nos detemos no cinema, estamos operando essa análise a partir de alguns princípios, que são anteriores à experiência de filmes específicos, mas também são construídos a partir dessas experiências. E esses princípios são tanto de afirmação como de recusa.

(…) Seria compreensível em um programa do Nelson Rubens. Não importa somente, ainda com as chacretes, o currículo sexual. É preciso que elas, claro, exponham suas formas. Algumas delas, as mais solícitas às promessas da câmera-vampira.

(…)Vemos os efeitos do tempo sobre os corpos, menos porque o valor de mercadoria desses corpos seja o mesmo de outros tempos, e mais porque essa falta de valor precisa ser exposta e comparada à de outros tempos. Para quê, exatamente? Em nome do quê? Apenas para se gerar uma imagem patética, que provoca o riso daqueles que, aparentemente, atenderam o pedido feito pelo filme: riam!

(…)Vamos rir da mediocridade dos que um dia tentaram ser celebridades. Não se trata de colocar em questão a fábrica de inseminação dessa demanda, mas de expor ao ridículo e ao escárnio não somente o ridículo deles mesmos mas, sobretudo, de ostentar uma forma de revelar esse ridículo aos nossos olhos por meio de movimentos de câmera e pelos cortes. Perde-se todo o pudor e todos os valores, mas não se perde o efeito da anedota.

(…) Mas um documentário não é um programa de auditório – ou não era. E quem aparece falando e sendo filmado não sabe estar adentrando a uma narrativa cujo objetivo é expor esses participantes a uma situação de constrangimento, seja como constrangedores ou como constrangidos. Alô, Alô, Terezinha não se auto-sacaneia como fazia Chacrinha. Não revela sequer a voz, as perguntas, os caminhos para se chegar aonde se chega. A instância de narração se apaga em cena e se organiza só na montagem, cujas relações entre cortes nos deixa claros os valores da malandragem a governar essa organização visual..

(…) Porque o que se procura, e o que se acha, é o pior do telejornalismo atual. Só o espetáculo do constrangimento. Tudo é somente imagem? Pode-se tudo? Essas pessoas não existem fora dali? Lembremos com relativização a frase de Luc Moullet: “a moral é uma questão de travelling”, e a inversão dela por Godard, “o travelling é uma questão de moral”. Cada operação tem seu objetivo e esse objetivo está em questão, sempre, porque a relação com o cinema está moldada também por seus princípios, não apenas pela competência na execução de suas finalidades. A legitimação crítica de Alô, Alô, Terezinha é sinal grave de uma derrota de certos valores.

Maio de 2009
editoria@revistacinetica.com.br

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