Amigos
É evidente que esse site, o CineDoc, é uma piada. Tivemos essa idéia para incentivar o debate sobre o documentário brasileiro, que a Mostra que estamos organizando no Risadaria - e a Mesa no É Tudo Verdade - quer catalisar. Só isso. Parece que funcionou.
Sinceramente, achamos que todos iam perceber de cara que o blog era irônico e dar algumas risadas - ou ao menos entende-lo como farsa (de baixa ou média qualidade) que reflita algo realista. Como toda piada, essa também é baseada na realidade: é a exacerbação caricatural de argumentos que percebemos nas críticas e debates sobre o documentário contemporâneo (como sintetizaram algumas pessoas que entenderam nossa estratégia paródica e nos escreveram em privado).
Mas, para nossa surpresa, grande parte dos leitores não percebeu a ironia. Isso, em si, nos parece preocupante: ambientes sem humor e autocrítica são sempre menos livres e menos criativos. Sem autocrítica há estagnação.
O estado de choque de algumas pessoas quanto às críticas soltas feitas a "mitos" (ídolos) também nos surpreendeu e nos preocupou. É limitado dialogar em ambientes que tem ícones sagrados e intocáveis, que não podem ser parodiados, reverenciados ou homenageados de outra maneira que não seja com o discurso em tom religioso. Ou em ambientes que acusam realizadores de serem antiéticos, através de textos que explicitam propostas de interdição por interpretarem a subjetividade e dignidade dos diretores, dos personagens ou simplesmente por não compartilharem do mesmo gosto estético.
Isso só reforça a nossa sincera impressão de que o campo critico, do debate audiovisual brasileiro de "não-ficção", está à beira do catolicismo estético e que isso tem limitado a criatividade em novos filmes documentais. Essa questão, amplamente disposta na fortuna critica do filme "Jesus no Mundo Maravilha"
(www.jesusnomundomaravilha.blogspot.com) foi catalisada num debate entre Jean Claude Bernardet e Eduardo Escorel em um encontro realizado pelo Doctv.
Jean Claude - para choque dos jovens intelectuais - se manteve firme e defendeu a liberdade estética que eles combatem. No caso do "Jesus no Mundo Maravilha" e do "Alô Alô Terezinha", o debate apareceu e foi desenvolvido de maneira saudável. Mas no caso de outros inúmeros filmes que seguem caminhos parecidos - trabalhando com a inserção do humor na retórica documental - o debate não ocorreu e os filmes foram ignorados por não estarem no "Cânone correto" da critica católica audiovisual.
Acreditamos na importância da crítica para a realização de novos filmes, para o desenvolvimento de linguagens e de diálogos mais profundos entre obras e público. Por isso, o que queremos provocar é uma maior diversidade crítica. E tentamos fazer isso pela via cômica. Não só por considerarmos o humor como uma poderosa ferramenta de reflexão, mas talvez por ser esse o único recurso que dispomos.
Como esse pequeno métier é muito influente e atuante (por méritos próprios, é preciso reconhecer) os documentários e festivais no Brasil estão tendendo a uma imensa homogeneidade estética que parece assustadoramente limitada. A maioria tenta copiar as regras do Coutinho e fazem sub-coutinhos. Ou mimetizam a linha dos bons filmes do Cao Guimarães e ficam nisso, sem variação. Nada contra dogmas, mas contra Um Dogma ou poucos dogmas. É o apreço pela pluralidade o que estamos propondo. A disposição por apreciar o sabor das vozes dissonantes deveria ser uma premissa da crítica, na nossa modesta e descontraída opinião.
Acreditamos realmente que esse debate é importante. E a idéia - tanto do blog, quanto da Mostra do Risadaria e da Mesa no É Tudo Verdade - é ampliar nosso leque estético em documentários para conhecimento do público em geral, além dos guetos. No momento estamos propondo o humor como recorte, mas poderiam surgir outros "sub-gêneros" documentais a serem conhecidos e apreciados pelo público. (o chamado espectador comun)
Público este que hoje classifica o documentário como algo diferente de um "filme", de um "longa-metragem". Isso porque a linguagem documental parece única e engessada para o senso comum. (diversas vezes já ouvimos - em papo de boteco - alguém comentar que assistiu algo sobre alguma coisa. Ao ser perguntado se foi em um documentário, a pessoa responde "não, era um filme mesmo."
Importante reforçar que não queremos fazer nenhuma "interdição critica" ao debate. Muito pelo contrário, só queremos que ele continue e que as pessoas realmente se manifestem livremente. De certa forma, a repercussão dos textos irônicos do site provocou uma explicitação das opiniões. Era nosso objetivo. Obrigado a todos que se manifestaram e desculpe se a piada não foi compreendida ou aceita como tal.
É estranho pedir desculpas por contar piada, mas sentimos que alguns querem ouvir isso. Outros apenas deram e vão dar risadas (ainda acreditamos que há gente humorada no mundo) ou simplesmente compreenderão o humor como vetor deste debate, mesmo que não achem graça.
Mas o fato relevante é que, piada a parte, entendemos que agora podemos continuar debatendo com mais profundidade. Para evitar mais dúvidas, colocamos no site um alerta dizendo que se trata de comédia.
Vamos elaborar uma Justificativa Teórica para o humor (rs). E vamos começar a postar explicações para as piadas, uma política de acessibilidade a pessoas que tem déficit de atenção humorística. O legal é que, no fundo, o debate feito através da piada, é super sério e acreditamos realmente que valha a pena.
Gratos pela atenção
Abraço a todos
Eduardo Benaim e Newton Cannito
BLOG CineDoc:
Idealização: Eduardo Benaim e Newton Cannito
Redação Final: Eduardo Benaim
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JUSTIFICARTÓRIO
(registre você também a sua justificativa do porquê é assim)
Porque fazemos isso e porque somos assim:
Oriundo de nossa antepassada cultura cartorial, o Brasil tornou-se a meca da Justificativa.
Tudo no Brasil de hoje tem que ter justificativa. Se você vai fazer um curta-metragem, tem que explicar porque existe o minifilme, qual a relevância social e a relação pessoal que tem com ele. Vai fazer um ritual indígena primitivo, tem que ter justificativa escrita, descrever procedimentos e como eles podem interferir positivamente na cultura nacional. É famoso e é pego com travestis, tem que contratar um intelectual gestor de crises para elaborar a justificativa pública. Tudo deve ser catalogado e organizado no Arquivo Nacional de Justificativas.
Diante disso, por recomendação do Ministério da Seriedade Crítica, todos os blogs humorísticos do país devem ter uma justificativa elaborada por Intelectuais com Registro profissional reconhecido pelo Ministério.
Temos que explicar a função social do humor e porque esse tipo de piada é necessária socialmente.
Promessa:
(Em breve, esse site terá uma justificativa elaborada por Intelectuais Profissionalizados que discorrerão sobre a importância da ironia, da sátira, do escracho, da paródia, do nonsense e de outros artifícios que revelam algumas obviedades escondidas na repetição cotidiana. Serão contratados justificadores profissionais que comprovarão que o humor faz bem à saúde. Aguardem.)

