Queridos Leitores.
Sou a mais nova colaboradora do CineDoc. Os textos anteriores, são muito raivosos e eu acredito que essa maneira de criticar filmes não vai nos levar a nada. Por isso, vim para fazer um contraponto. Pois, os que fazem esse tipo de documentário só vão dar mais risadas com esses textos virulentos e acusatórios e, pior, como hienas descontroladas, vão querer fazer mais filmes assim.
Precisamos ponderar mais antes de sair esbravejando e alertar para o perigo que representam alguns procedimentos. Vamos ao ponto, para discutir de maneira saudável e construtiva. O meu post inaugural é dedicado ao filme "Vida de Artista", do cineasta João Batista de Andrade.
Foi uma experiência muito marcante pra mim e para todos que estavam no Festival de Belo Horizonte, em 2003. Assim que assistimos, eu e meus colegas tivemos um choque e, entre nós, a opinião foi unânime em apontar certo déficit ético do realizador.
O filme todo, sobre a vida de um artista santeiro é chocante e desestabilizador. E tanto o choque quanto a desestabilização que provocam não são positivos, é preciso frisar. Não apontam caminhos, não nos levaram a lugar nenhum. A cena que mais nos estarreceu foi aquela em que o diretor invade o barraco da mãe do protagonista - explicitamente miserável - que clama por ajuda. Ele então, dignamente, oferece água em um recipiente de lata. O princípio pareceu belo, não fosse o tempo considerável que ele perdeu apenas para buscar o melhor enquadramento e mostrar a pobre senhora secando o copo com voracidade assustadora. Ele grava tudo sem parar, para a espetacularização. Não desliga a câmera em nenhum segundo e perde precioso tempo para tentar encontrar seu melhor ângulo. Ouvimos, em tempo real, os grunhidos que enfatizam a sede e, principalmente, o estado de fragilidade da personagem diante de seu algoz documentarista. Momentos angustiantes.
Depois disso, o que acontece? Corta e lá está o João Batista em outro lugar, em busca do seu personagem. O que nos preocupa é o ser humano, entende? Aquela senhora tem uma vida antes e depois do filme. E o que acontece com ela, ninguém sabe, nunca mais tivemos notícias. Sofremos a sede dela, nos angustiamos com sua paupérrima condição de vida e depois seguimos em frente, em busca de novos personagens, novos filmes.
Acho que uma interdição seria benéfica... Não uma interdição mesmo, entende? Mas uma interdição no amor. Para o bem das pessoas. E até mesmo o bem do documentarista que, tudo indica, nem sempre sabe o que é melhor para ele e para os outros. Uma interdição amistosa, propositiva e crítica, em busca da clareza nos porquês dos procedimentos e dos efeitos que eles nos provocam.
Acreditamos que muitos raciocínios confusos sobre documentários, nos últimos anos, foram formados por influência de trabalhos deste diretor. Muitos anos atrás ele já havia nos desestabilizado com filmes como “Migrantes”, “Wilsinho da Galiléia” e muitos outros que simplesmente retrataram uma realidade cruel e foram embora, sem considerar o antes e o depois dessas realidades.
É preciso dizer que este blog não tem nada contra a pessoa do documentarista, porém contra seus métodos de trabalho e seus instintos incontroláveis e primitivos, que se pretendem polêmicos demais para o audiovisual brasileiro. Assinamos aqui um pedido, em nome do povo brasileiro, para que esse senhor pare de fazer filmes assim. Que faça algo mais artístico. Se não for possível, algo mais educativo pelo menos. Ele demonstra que conhece a gramática cinematgráfica. Então, seria bacana que a usasse para o bem das pessoas. De preferência, de quem mais precisa.
Voltemos à cena deste filme que traumatizou muitos espectadores que, como eu são mães, pais e filhos e ainda terão dificuldades para se recuperar do trauma. Eu queria levantar só mais uma questão sobre este trecho de “Vida de Artista” (que não postamos aqui por considerarmos muito forte, pois poderia desestabilizar o blog. Não recomendamos, mas quem tem estômago forte e quiser assistir, basta procurar no vimeo. ) E se essa senhora com sede estivesse sofrendo um ataque cardíaco ou algo que necessitasse de ajuda urgente e os segundos que ele perdeu para filmar fizessem a diferença entre a vida e a morte, o que ele teria feito? A resposta é clara e nem precisa de resposta.
O diretor preferiu mostrar a senhora na cama - devorando um copo de água com barulhos que flertam com o grotesco, clamando por ajuda e chorado sua solidão - ao invés de fazer um retrato poético da sede ou um registro lírico sobre as condições da terceira idade no interior do Brasil.
Mas a noção de pecado é esquecida nos dias atuais. Esses tipo de cineasta só pensa no filme. Deviam pensar mais nas pessoas, ter mais responsabilidade. Mas não, só pensam em captar o melhor plano, em explorar a miséria dos miseráveis.
E afinal, o que foi que aconteceu com essa senhora? Alguém sabe? Ele pode simplesmente filmar e deixa-la lá? A partir do momento em que se filma alguém, uma vez na vida, criamos um pacto eterno e o cineasta deveria ajudá-la para todo sempre.
Principalmente quando se pinta um retrato cruel da realidade.
Acreditamos que o documentarista só pode se eximirda responsabilidade de cuidar de seus personagens para sempre, em apenas algumas excessões - que felizmente estão virando regra: Se fizer um retrato poético que mostre o lado humano e sábio de seus personagens.
Se a tristeza do personagem for avassaladora, é preciso esforço e habilidade para sutiliza-la como bela melancolia. A fotografia e a trilha podem ser ferramentas fundamentais para poetizar e criar novos ângulos, texturas e facetas que possam, de alguma maneira, tridimencionalizar a personagem, gerar uma aproximação - e quem sabe até criar uma identificação, por que não? - entre a poesia do público dos cinemas de arte e a poesia da sabedoria popular.
Mas isso é um conjunto de técnicas cuja orquestração requer habilidades raras, que Deus – infelizmente - não deixou de herança para todos.
Maria Flores Quintal


Me desculpe mas,vc não sabe o que e de quem está falando!!!Acho que antes de tecer sua critica ácida,deveria conheçer a tal senhora,saber onde e como vive de verdade!!!
ResponderExcluirE principalmente!Respeitar e conheçer melhor o trabalho do Jõao Batista De andrade!
faça-me o favor,viu!!!