Mais um exemplo de mau gosto é misturar trilhas lúdicas, cenários coloridos, um clown suburbano e indefeso com o trágico universo da violência brasileira.
A violência e insegurança nacionais são temas que devem sempre serem tratados de maneira sóbria, acompanhados de uma crítica clara e didática, que informe quem é bandido e quem é do bem, quais as diferenças entre os tipos de violações do código penal e quais as conseqüências de um comportamento desrespeitoso. A maneira como o documentarista tratou do tema confunde o espectador, que a certa altura do filme não sabe mais o que é sério e o que é brincadeira, o que é representação e o que é realidade.
Desta maneira, o filme não aponta soluções! E ainda por cima pretende misturar duas características brasileiras antagônicas: a alegria carnavalesca e a aptidão para a violência. Não se pode misturar duas coisas como essas e confundir o público impunemente. Melhor que qualquer explicação e certamente melhor que assistir ao referido filme, é ler o artigo do famoso analista de cinemas mineiro, César Guimarães, que de maneira perspicaz e rara erudição, coloca os pingos nos ís sobre este chamado documentário humorístico:
"Nenhuma maravilha habita esse mundo retratado por Newton Cannito, apenas o horror, aquele que não se suporta, e que aparece, forçadamente, travestido de brincadeira.
Por obra de uma estratégia astuciosa (que se quer inteiramente esclarecida quanto ao uso de procedimentos reflexivos tanto no momento do encontro filmado quanto no manejo da ilha de edição), em Jesus no mundo maravilha somos confrontados a um filme cuja crueldade, calculada, faz do jogo do sentido um verdadeiro tormento, com balizas estrategicamente dispostas. Com a liberdade do seu julgamento crítico e a potência dos seus afetos, o espectador deve se preparar para o pior."
Este Blog declara-se entusiasta deste apurado artigo (disponível em: http://www.doc.ubi.pt/07/dossier_cesar_guimaraes.pdf) e de outros pensadores como este, que dedicam-se ao estudo da consciência e subjetividade dos realizadores de documentários, sejam eles do bem ou do mal. Disponibilizamos abaixo um trecho deste filme pavoroso, de tirar o sono dos que prezam pela paz.

Estou cansado de ser perseguido por pessoas que não entendem meu modo de ser, existir e sentir. Cansado... Desde que esse filme aconteceu minha vida virou um inferno e dezenas de intelectuais começaram a me perseguir virtualmente. No blog (www.jesusnomundomaravilha.blogspot.com) tem vários exemplos. Peço por favor que me esqueçam e toquem sua vida... Não fiz o filme por mal, foi quase sem querer, ele meio que surgiu de dentro de mim. Peço, por favor, que esqueçam o que filmei! E exijo que esse critico se identifique para eu saber com quem estou falando!
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