O chamado documentário humorístico não é apenas um problema cinematográfico. Muito pior, aliás, quando se aplica estes procedimentos tendo a televisão - mídia de massa, consumida por milhões de pessoas, muitas delas sem instrução e discernimento - como objetivo.
Dois pioneiros, neste estilo de deturpação da realidade para a televisão, foram Marcelo Tas e Fernando Meirelles, que nos anos 80 tentavam fazer graça às custas de pessoas reais nas reportagens do personagem Ernesto Varella, um ridículo repórter que acuava seus entrevistados com o intuito de torna-los sua imagem e semelhança, ou seja também ridículos.
Marcelo Tas (na pele do repórter Ernesto Varella) e Fernando Meirelles (como o cinegrafista Valdeci) viajavam Brasil afora para fazer chacotas com as pessoas, não apenas com perguntas absurdas como com o mal uso da manipulação da edição. Neste exemplo postado aqui, é nítida a postura desapropriada com que o repórter tenta ridicularizar um importante dirigente do futebol brasileiro que estava em missão desportiva na Copa do Mundo de 1982, realizada no México. Nabi Chedid, um homem digno a serviço do país, foi provocado até o limite de sua paciência pelos realizadores desta reportagem humorística.
Muita gente sabe quais as conseqüências de não se ter barrado ou cerceado esse tipo de reportagem (ou documentário televisivo) na época. Hoje, o mesmo Marcelo Tas, já idoso em sua terceira idade e totalmente calvo, emplacou um programa que aplica os mesmos procedimentos nocivos em horário nobre na TV Bandeirantes (no semanal CQC) acuando celebridades, políticos e pessoas do povo, que são ridicularizadas no mesmo estilo praticado a 25 anos atrás. Lutou-se pela liberdade de expressão, mas graças a realizadores como estes, é fácil perceber o quão perigosa pode ser a liberdade sem limites.

meu caro, sem querer vir aqui com ofensas (detesto esse tipo atitude em comentários) te chamo para uma reflexão, já que defendo o humor. Você defende aqui um monopólio da verdade por parte dos documentaristas "sérios". Seriam vocês então os "donos da verdade", contrariando o dito popular? Creio que não, já que milhares de filósofos se debruçaram sobre essa tal verdade, e ninguém veio com uma palavra final (verdade seja dita, hehe). Mais de uma vez, você defende que o tipo de humor mostrado nesses documentários é nefasto, prejudicial, há muitas pessoas por aí com problemas, tomando antidepressivos... Ok, mas não tem gente que se mata de tanto ver o mundo cruel? O humor não resgata um pouco de alegria de quem sofre? Já ouviu falar em "Doutores do Riso", por acaso? Você também trata o público como pobres coitados, sem discernimento. Será que é assim mesmo? Bom, para finalizar: se não fosse essa tal liberdade de expressão que parece te desagradar, que seriam dos documentário sérios,hein? Aquele abraço, e muito riso!
ResponderExcluirPrezado Renato
ResponderExcluirAgradecemos o educado comentário, depois de tantas críticas virulentas sofridas por este blog.
Entendemos seu ponto de vista mas discordamos parcialmente. O humor é por princípio uma visão distanciada da realidade e pode sim ter efeitos positivos quanto ao relaxamento do espectador que busca alguma saudável alienação. Não criticamos aqui o humor, pelo contrário. Criticamos aqui a inserção do humor em um contexto documental, em que não se faz uso de atores para representar personagens, mas sim de pessoas reais. O distanciamento caracteristico do humor, ao ser inserido na realização documental, ganha uma perigosa aproximação com a realidade e na maioria das vezes não permite que as pessoas percebam a intenção cômica, mas apenas o intuito de achincalhar.
A ironia, tanto nos documentários quanto em outros meios, é um dilema para a sociedade brasileira, pois na maioria das vezes é mal interpretado e pode ser um tiro na culatra. O que é ruim e pouco produtivo tanto para o emissor quanto para o receptor da obra.
Mais uma vez agradecemos seu comentário no Blog e esperamos que outros sigam o mesmo exemplo para que se possa debater questões importantes como essas, para que o publico possa ter mais clareza nas escolhas de sua próprias éticas, tanto no momento de consumir quanto de prduzir filmes. Cordial abraço de frente, sério e austero.